quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sopa de camarão com mandioca: o sertão vai virar mar...


Nunca fui muito musical, mas se tem uma receita capaz de sempre trazer uma canção à minha cabeça é a sopa de mandioca com camarão. Ela é uma mistura de roça com mar, de caipira com nordestino, de brisa com calor. Acendo o fogão à lenha na tarde fria de julho, esquento a chapa e a casa, cantarolo  Sá e Guarabyra em “Sobradinho” e sigo pra pia descascar o quilo de mandioca colhido do lado de lá, nas terras do vizinho.

Acho tão romântica a ideia do mar se misturar com o sertão, imagino as águas salgadas trazendo tudo o que o mar tem de bonito e gostoso se misturando com a beleza e sabores das montanhas.  Coloco uma frigideira de ferro fundido e uma panela com dois litros de água no fogo, puxo uma tora de madeira, alimento a brasa e corto os dois pequenos maracujás colhidos na quitanda do vilarejo. Separo suas sementes sentindo seu efeito calmante capaz de se desprender desde seu aroma. Jogo na água da panela e vibro junto com as cores deste aconchegante cenário.

Puxo da adega um vinho tinto e seco, português. Sirvo a taça do marido e dos amigos. Bebo água, preciso de sobriedade para me inebriar nos encantos deste enredo. Sugiro uma moda de viola para o som ambiente e ganhei foi Elis Regina como companhia para cozinhar. Descasco duas cebolas das grandes, corto em quatro pedaços e mando para panela junto de mais três folhas de louro, um galho pequeno de alecrim e uma colher de chá de sal.

Na chapa quente ao lado, uma longa e larga alheira é ali deitada e por uns 20 minutos ficará pululando até firmar e ser cortada em rodelas para melhor servir os amigos convidados. Fui muito feliz no dia em que descobri que porco e peixe fazem um par perfeito em uma refeição.

Do mar veio o camarão, miúdo, mas em uma boa turma pesando 800 gramas na balança do mercado. Enquanto tocava “Atrás da Porta” a mandioca era quem derretia na panela. Eu seguia com meu repertório interno assoviando “...vai ter barragem no salto do Sobradinho e o povo vai-se embora com medo de se afogar... laiá”.

Gentilmente socorri a mandioca e assim que seu fervor baixou mandei para o liquidificador para virar um belo creme com todos seus componentes, fora a folha de louro.  Abri o pacote de camarões congelados e mandei para a panela. Ali soltaram seus caldos e mudaram de cor. Vermelhinhos foram logo banhados pelo creme de mandioca aromatizado pelo frescor do maracujá. Pimenta-do-reino, uma colher de café, para temperar, e uma colher de chá de pimenta calabresa para apimentar e esquentar de vez o clima daquele inverno cinza e preguiçoso.

Os sabores deste prato me fascinam. A cremosidade da mandioca é cortada pela força do camarão que se rende ao azedinho do maracujá responsável por quebrar o calor da pimenta. Ah, que maravilha. Elis entoou “Romaria” e minha clientela amiga seguiu em procissão para mesa. Fui ao fogão e voltei de panelas nas mãos, dançando e cantarolando o meu refrão gastronômico: “...e o sertão vai virar mar dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão”.


*Fernanda Canto é jornalista, cozinheira e empreendedora. E das boas! É criadora da Danada da Nanda, empresa de marmitinhas gourmets sem adição de gordura.

2 comentários :

Tabita Said disse...

Que texto lindo! É bruxaria pura! Toda a delicadeza e energia da criatividade e da alma feminina! Nanda, eu quero essa poção! Vou pedir uma já! :) Saudade sempre!

Fátima Rossi disse...

ahhhhh...que delícia!
ummmmm...que lindo!!!
ops! o contrário???
tudo junto???
junta tudo...e dá sabor...da vida
...dá vida...
bjos Nanda querida

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